
A história do cannabis confunde-se com a própria história humana. Sempre que consulto registos arqueológicos, textos antigos ou observo o dia a dia da minha loja aqui em Portugal, vejo o mesmo padrão: esta planta acompanhou-nos desde que começámos a cultivar a terra. Foi fibra, alimento, medicamento, ferramenta, símbolo espiritual e, mais recentemente, um recurso regulamentado que melhora o bem-estar de muita gente.
Ao longo de milhares de anos, o cannabis sobreviveu a impérios, proibições, guerras, preconceitos e campanhas mediáticas. E, mesmo assim, recuperou o seu espaço na sociedade moderna. Hoje, com produtos tão diversos como óleos, cosméticos, flores com 0,0% a 0,3% de THC e materiais de construção, continua a mostrar a sua versatilidade.
Esta é a sua viagem através da humanidade.
Origem do cannabis e os primeiros usos na Ásia e no Neolítico
Evidências arqueológicas desde 7000 a.C.
Os primeiros indícios de utilização do cannabis remontam ao Neolítico, entre 7000 e 3000 a.C. Foram encontradas fibras, sementes e restos vegetais na China, Mongólia, Turquestão e Sibéria, mostrando que esta planta era usada desde os primeiros povoamentos humanos.
Alguns dos achados mais antigos —datados de cerca de 2600 a.C.— incluem tecidos de cânhamo, redes de pesca e vestígios de resina. Fácil de cultivar e extremamente resistente, o cannabis tornou-se um recurso fundamental para as primeiras comunidades.
China e Turquestão: tecidos, medicina e rituais primitivos.
Na China antiga, o cânhamo foi essencial para:
- tecidos e vestuário,
- cordas e redes,
- alimentação (óleo e sementes),
- medicina tradicional.
Textos como o Pen Ts’ao Ching já descreviam as suas aplicações terapêuticas e psicotrópicas. Em vários achados funerários, como a célebre “dama do gelo”, encontraram-se flores de cannabis usadas provavelmente para aliviar dores graves.

A expansão do cannabis pela Europa, África e Médio Oriente.
O cânhamo na Grécia, Roma e culturas indo-europeias.
Com as migrações humanas para Oeste, o cannabis chegou à Europa. Há registos polínicos da planta na Grécia, Itália, Balcãs e Mediterrâneo.
Na Grécia e em Roma, o cânhamo era usado para cordas, velas, utensílios náuticos e também para fins medicinais. Os citas, descritos por Heródoto, inalavam vapores de cannabis em rituais tribais.
Usos rituais e medicinais na Índia, Pérsia e mundo árabe.
Na Índia, preparados como bhang, ganja e charas fazem parte de práticas espirituais ligadas a Shiva.
No Médio Oriente, o haxixe tornou-se amplamente utilizado, aparecendo em obras como As Mil e Uma Noites.

África e a influência no continente americano.
No centro e oeste de África, o cannabis era consumido para fins medicinais, espirituais e recreativos. Durante a escravatura, estes conhecimentos viajaram para o Brasil e Caribe, onde deram origem à maconha.
O cannabis no Novo Mundo, colonização, agricultura e economia
As caravelas, o cânhamo e a chegada às Américas
O cannabis entrou nas Américas através dos europeus. As caravelas de Cristóvão Colombo levavam cerca de 80 toneladas de cânhamo em cordas, redes e velas — um testemunho da importância industrial da planta.
Cultivo colonial, têxteis e primeiras regulamentações.
No período colonial, o cânhamo tornou-se vital para têxteis, navegação e medicinas simples. Em países como o Chile, por exemplo, o cânhamo foi cultivado de forma massiva entre os séculos XVI e XIX.

The Crossover Hemp Chelsea for Men in Dark Brown new
Curiosamente, essa tradição têxtil ancestral do cânhamo voltou a ganhar força na atualidade. A indústria tem evoluído e aperfeiçoado técnicas para produzir materiais mais leves, duráveis e sustentáveis — e Portugal destaca-se especialmente neste renascimento. Marcas modernas como 8000Kicks provaram que o cânhamo continua a ser uma matéria-prima de excelência, desenvolvendo produtos inovadores como ténis e acessórios feitos quase inteiramente desta fibra ecológica. O que antes movia caravelas, hoje inspira moda sustentável de última geração.

Do Brasil ao Caribe, usos sociais e espirituais.
À medida que a plantação de cana-de-açúcar se expandia, os escravizados angolanos cultivavam maconha para uso ritual e recreativo. O costume espalhou-se pelo Caribe e chegou até à América do Norte.
Do auge à proibição, o veto global nos séculos XIX e XX.
Demonização mediática e o termo “marijuana”
No início do século XX, o magnata William Randolph Hearst começou uma campanha para associar o cannabis ao crime e à imoralidade. Foi ele quem popularizou a palavra “marijuana” para afastar a planta da imagem útil do cânhamo.
A proibição de 1937 nos EUA e o impacto mundial.


Primeira pessoa a ser detida pela proibição.
Em 1937, os Estados Unidos proibiram o cannabis para todos os fins. A pressão da indústria do algodão, farmacêuticas e empresas de papel —que viam o cânhamo como concorrente barato— acelerou a proibição global.

O declínio do cânhamo industrial.
A Convenção Única de Drogas de 1961 praticamente eliminou o cultivo de cânhamo em grande parte do mundo. A investigação científica ficou estagnada durante décadas.
O renascimento moderno, ciência, medicina e sistema endocanabinoide.
A descoberta do THC e os primeiros estudos.
Em 1964, Rafael Mechoulam isolou o THC, inaugurando uma nova era de investigação. Hoje sabemos que a planta contém mais de 400 compostos activos e dezenas de canabinoides com potencial terapêutico.

Raphael Mechoulam nos anos 1960, na Universidade Hebraica de Jerusalém, onde desenvolveu os seus estudos
O sistema endocanabinoide, o maior regulador do corpo.

Descoberto nos anos 90, o sistema endocanabinoide existe no corpo humano e na maioria dos vertebrados. A sua função é manter a homeostase — o equilíbrio interno.

Encontra-se presente:
- na pele,
- sistema imunitário,
- cérebro,
- sistema nervoso,
- órgãos internos.
Benefícios terapêuticos comprovados.
Estudos modernos apontam benefícios no tratamento de:
- dor crónica,
- ansiedade,
- náuseas causadas por quimioterapia,
- distúrbios do sono,
- epilepsia,
- inflamações persistentes,
- espasticidade muscular.
No nosso dia a dia, é comum ver clientes —muitos deles acima dos 60 anos— a relatarem melhorias no descanso, mobilidade e qualidade de vida com produtos de baixo teor de THC.
O cannabis no século XXI, regulação, cultura e mercado global.
Da legalização medicinal ao uso recreativo.
Nos últimos 30 anos, dezenas de países regulamentaram o cannabis medicinal ou recreativo. A tendência global é clara: substituição do proibicionismo por modelos regulados.
O caso português, legislação clara e acessível.
Portugal destaca-se pela clareza das normas. Trabalhando no sector, noto diariamente como é fácil aceder à informação necessária e cumprir os requisitos legais — algo essencial para quem quer empreender na área.
O boom do cânhamo industrial e dos produtos de baixo THC.
Hoje, produtos com 0,0%–0,3% de THC são amplamente vendidos na Europa. Na minha loja, por exemplo, trabalhamos com:
- flores de cannabis industrial,
- óleos,
- cosméticos,
- vestuário,
- materiais de construção ecológicos.
A procura é tão elevada que enviamos encomendas para todas as regiões do país.
Como o cannabis é usado atualmente, aplicações práticas.
Óleos, cosméticos, fibras e flores com baixo teor de THC.

O cânhamo voltou a afirmar-se como uma solução natural e sustentável. Os óleos ajudam no relaxamento; os cosméticos são excelentes para peles sensíveis; e os materiais de construção à base de cânhamo são cada vez mais procurados na bioconstrução.
Utilizadores de todas as idades.
Uma das coisas mais interessantes é a diversidade de público. Na nossa loja, é habitual recebermos clientes desde os 18 até aos 80 anos. Cada um procura algo diferente — bem-estar, descanso, alívio muscular, cuidados de pele ou simples equilíbrio diário.
Porquê que o cânhamo regressou com tanta força.
Porque é sustentável, adaptável e eficiente:
- cresce rápido,
- regenera o solo,
- requer pouca água,
- substitui materiais poluentes,
- é completamente biodegradável.
Uma planta que sempre caminhou connosco.
O cannabis não é apenas uma planta — é um companheiro de viagem da humanidade. Atravessou eras, continentes, culturas e preconceitos. Foi essencial para navegar oceanos, construir cidades, aliviar dores e inspirar tradições espirituais.
Hoje, continua a mostrar que tem um papel relevante no bem-estar, na sustentabilidade e na economia moderna. Depois de mais de dois anos e meio a trabalhar diariamente com derivados de cannabis, posso afirmar que esta planta não regressou ao centro das atenções… ela simplesmente nunca nos deixou.
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